Por Sheila Aragão
Nesta terça-feira, 2 de fevereiro, amigos, parentes e admiradores estiveram na Igreja Nossa Senhora de Guadalupe, na 312 Sul, em Brasília, para a homenagear Neide Castanha, a assistente social, guerreira que durante mais de 30 anos defendeu as minorias neste País. Neide morreu no último dia 26 de janeiro, vitima de câncer no intestino.
A Igreja estava lotada. A emoção tomou conta de todos. O ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos Paulo Vannuchi estava lá ao lado de outras autoridades do governo, bem como representantes de várias entidades não governamentais, artistas e todos que de alguma maneira estiveram ao lado de Neide Castanha na Luta pelos Direitos Humanos. Principalmente, nos últimos anos quando lutou bravamente em defesa das Crianças e Adolescentes violentados diariamente de Norte a Sul do País. E muitas vezes, resgatando crianças brasileiras em situação de risco em outros Países envolvendo Deus e o Mundo para trazer pra casa um pouco da inocência perdida desses pequenos.
Neide Castanha era atrevida. E , com certeza, onde quer que esteja continuará lutando pelos seus valores: amor, fraternidade e solidariedade. Aqui, aqueles que participaram de seu convívio ficaram com o legado para continuar na luta sendo a VOZ DAQUELES QUE NÃO PODEM FALAR.
Do Rio de Janeiro, Joel Zito Araújo, cineasta, diretor do documentário CINDERELAS, LOBOS E UM PRÍNCIPE ENCANTADO, que marcou o projeto de 18 de Abril de 2009, Dia Nacional de Luta contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, mandou este texto com exclusividade para nós.
Uma frase de Neide Castanha tornou-se regularmente citada nos debates que tenho sido convidado para falar sobre exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil. Ela dizia: “é, infelizmente, um dos fatos mais democráticos do Brasil, acontece entre ricos e entre pobres, nas capitais e no interior, na região litorânea e nos mais distantes rincões do país”. E esta foi uma das inúmeras observações inteligentes e engajadas a favor da infância que ouvi de Neide em nossa curta e intensa convivência, lançando o meu filme “Cinderelas, lobos e um príncipe encantado” em seis capitais do país no ano passado, como parte de sua luta.
Diante do impacto e do magnetismo dessa mulher cheia de energia e de humanidade é que sua morte caiu como um raio na minha cabeça. E, relutando com a notícia, perguntei atônito: como podemos perder pessoas assim tão importantes para o país? Como vamos aceitar o desaparecimento de um ser humano com tanto amor e tanto cuidado com as crianças exploradas e abusadas no país ou no exterior?
Eu sei que temos dificuldades em aceitar essa passagem para o desconhecido, mas o meu conforto é perceber que se não contaremos mais com sua energia física e sua habilidade, teremos um grande exemplo que pode iluminar e transformar as mentes e corações da minha e das novas gerações de brasileiros sobre o quanto foi e é essencial a luta que norteou sua vida.
Joel Zito Araújo
Cineasta, escritor e Dr. em Comunicação e Artes pela ECA-USP.
Diretor - Casa de Criação Cinema |